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Manter a fórmula infantil, passar para leite de transição, leite de vaca ou leite vegetal?

Escrito por Patricia da Costa Moura, Nutricionista 3454N

Até aos 12 meses de idade é consensual, a introdução do leite de vaca como fonte láctea principal é completamente contraindicada, sendo que devemos dar preferência ao leite materno, e na sua impossibilidade, a uma fórmula para lactentes (1) ou de transição (2 – > 6 meses).

Durante o primeiro ano de vida o leite de vaca não é aconselhado uma vez que este não é tão facilmente digerido pelo lactente devido ao seu sistema digestivo ainda imaturo, além disso, carece de quantidades adequadas ferro e vitamina C e é também apontado como ponto negativo o seu alto teor em proteínas, que em momentos de maior debilidade, como febre ou desidratação, pode sobrecarregar os rins imaturos de um lactente. Os bebés que são amamentados a leite de vaca antes dos 12 meses podem desenvolver anemia, não só pelo seu baixo teor em ferro, mas também porque a proteína do leite de vaca pode irritar as paredes do estômago e do intestino devido à imaturidade do sistema digestivo que não digere de forma adequada esta proteína, o que consequentemente pode levar a perda de sangue através das fezes. 

Mas e depois dos 12 meses?

O leite materno continua a ser a opção mais consensual e sempre que possível deve ser mantida até aos 24 meses. Todavia, sabemos que isso nem sempre é possível, ou porque a mãe quer/precisa de fazer o desmame ou porque o bebé já se encontra previamente a fórmula infantil. Então, o bebé fez 12 meses e não é possível continuar o leite materno, devo introduzir o leite de vaca? Ou introduzir um leite de crescimento (fórmulas 3,4,5)? Posso manter a fórmula infantil?

Os contraindicados

De facto, estas questões são dúvidas muito frequentes em consulta e temo dizer-vos que não existe nenhuma resposta certa que dê para todas as famílias. Vamos começar pelo mais fácil, que é o que totalmente contraindicado:

Bebidas vegetais:

A maioria das bebidas vegetais não são nutricionalmente equivalentes ao leite, nomeadamente no seu teor em vitamina D e cálcio, e por isso não pode ser feita uma troca direta. Existe uma pequena exceção para a bebida de soja, que é a bebida vegetal mais idêntica nutricionalmente ao leite de vaca e alguns comités consideram ser uma alternativa aceitável, contudo, sugiro que a decisão de substituir o leite materno/fórmula por bebida vegetal de soja aos 12 meses seja primeiro discutida com o nutricionista materno-infantil, de forma a garantir que não vai existir nenhum déficit nutricional consequente desta decisão. No grupo de bebidas vegetais não estamos obviamente a incluir fórmulas vegetais adequadas para lactentes;

Leites de crescimento:

É a própria Associação Americana de Pediatria (AAP), um dos comités de nutrição pediátrica mais conceituados, a afirmar que estes leites de crescimento são estratégias de marketing para o desmame de leite materno ou fórmula e são desnecessários e potencialmente perigosos. Na sua grande maioria, estes produtos contêm açúcar e podem reduzir a ingestão de alimentos mais saudáveis e nutritivos. As guidelines de outros países, como Reino Unido (NHS) e Portugal (DGS), têm a mesma opinião em relação aos leites de crescimento.

Leites com sabor:

Bebidas aromatizadas, como leite de chocolate, são totalmente contraindicadas até aos 2 ano de idade. Depois dessa idade, estas bebidas também não são aconselhadas devido ao seu elevado teor em açúcar e por promoverem um paladar doce, e consequentemente, aumentar a recusa ao leite natural.

Introduzir o leite de vaca ou manter a fórmula infantil?

Depois dos 12 meses o leite deixa de ser o alimento mais importante da alimentação do bebé e já é suposto que este tenha uma alimentação variada e equilibrada através de alimentos sólidos, pelo que já é possível incluir o leite de vaca na alimentação mas com atenção à quantidade e nunca em livre demanda.

A DGS recomenda 3-4 porções* de lacticínios por dia entre os 12 e os 36 meses, o que daria no máximo 500ml de leite por dia. Caso inclua outros derivados de leite, como queijo e iogurtes as necessidades de leite são ainda inferiores, pelo que, como pode facilmente entender o leite não tem assim um peso tão grande na alimentação, em comparação ao primeiro ano de vida. (*Nota: 1 porção = 125ml de leite = 125g de iogurte natural = 20g de queijo). Já a AAP recomenda oferecer entre os 500-700ml/dia até aos 24 anos, alguns estudos chegam a apontar um 1L/dia. As guidelines do Canadá recomendam 500ml/dia, no máximo 750ml, para não comprometer a ingestão de outros alimentos.

Se optar pelo leite de vaca, deve optar pelo leite gordo, se possível com adição de vitamina D. Em casos assinalados de risco de obesidade e histórico familiar de obesidade, hipertensão ou doença cardíaca pode fazer sentido optar pela leite meio-gordo, mas esta situação deve sempre ser discutida primeiro com o profissional que acompanha o seu filho (nutricionista ou pediatra). O leite magro ou com menos de 1% de gordura não é recomendando até aos 24 meses.

Então e a fórmula infantil?

O leite de vaca é um alimento com um elevado valor calórico em comparação à fórmula o que pode diminuir o apetite para outros alimentos e não é enriquecido com vitaminas e minerais, pelo que é se a alimentação do seu filho o preocupa e/ou ele ainda não tem uma rotina alimentar bem estabelecida, ainda não aceita uma grande variedade de sólidos e está muito dependente da fórmula ou tem alguma patologia que interfira com a absorção ou metabolismo de nutrientes poderá fazer sentido manter a fórmula. Nestes casos, poderá manter o leite 1, caso não tenha feito a transição para o 2, ou manter o leite de transição (leite 2) que já é habitual aí em casa. Caso esta seja a sua situação, o meu conselho é que fale com um nutricionista materno-infantil ou o pediatra que acompanha o bebé para discutirem qual poderá ser a melhor solução para o seu filho.

Em jeito de conclusão, o leite materno será sempre o golden standard e deve ser mantido até aos 24 meses. Nos casos em que esta não é uma opção válida o leite de vaca gordo irá cumprir o seu prepósito após os 12 meses, contudo, cada caso é um caso e é importante analisar a alimentação como um todo.

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